Desencantos

Os encantos, comigo, acontecem na realidade como nos contos de fadas, assim, meio do nada. É na poção do último gole da saideira, aquele martelinho de pinga em copo de boteco, sim, os copos em certos botecos são encantados, tem vezes que pinta umas doses de Big Aplle enfeitiçada, é o samba na rua que pode levantar um pozinho de pirimpimpim e pronto, tô pego. Existem por aí até espelhos que levam a outros mundos, juro, vi um desses uma vez em plena avenida Farrapos. Seres extraordinários têm também. Na vila Nazaré, por exemplo, há uma galinha que põe ovos maciços de maconha e um mini dragão criado em gaiola anti-incêndio. E não é papinho. Já estive em distopias onde repousavam, serenas, em uma fileira de beliches, dezenas de feias adormecidas. Não mostro aqui por respeito às moças, mas tenho registros.

Já os desencantos, nas histórias e nos livros, precisam de um contrafeitiço, o toque de alguém especial, palavras certas ditas em momentos únicos, ou, milagres ofertados por seres poderosos. Agora, na realidade, na vida mesmo, ao vivo, nessa minha vidinha ordinária, esses desencantos acontecem a todo o momento. Me pegam pela mão e atravessam a rua sem o menor pudor. Sentam-se ao meu lado no ônibus. Acenam da janela de um prédio. Escoam pelas ondas do rádio. Transbordam nos televisores e celulares, em reuniões de família, nas falas e atitudes despretensiosas de quem jura de pés juntos que não queria, mas, no fundo, lá no fundinho, mesmo sem querer, me tira pra bobo. No fim, eu percebo, porque, por mais incrível que pareça, não sou bobo, apesar dessa minha cara que teima estampar o contrário.

Desencantar-se pode ser uma libertação ou uma danação. Por vezes o encantamento é o que me põe de pé todos os dias. Em outras, perder o encanto é exatamente o que me empurra para novos caminhos. Acredito que o ideal seja o meio termo. “No creas en las brujas, pero las hay, las hay”. Por isso, quando encantado, cometo as maiores sandices, distribuo absurdos gratuitos, nego a mim mesmo, apaixono, desespero, fico muuuito feliz, ou, imensamente triste. Caso típico de tripolaridade. Depois, assim, do nada, ou por motivos explícitos, me desencanto. Aí, pronto, começo tudo de novo… Afe!

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