mergulho na feira – entre números secos e letras molhadas.

 

luizafeiradolivro

         Minha Porto Alegre talvez seja a única cidade que tem cinco estações climáticas no ano. Primavera, verão, outono, veranico de maio e inverno. Lá pelo final de outubro, início de novembro, as condições meteorológicas características de cada estação podem ocorrer, inclusive, todas no mesmo dia. Nesse período (28 de outubro a 15 de novembro), acontece a 62ª Feira do Livro. A maior do gênero na América Latina. Patrimônio imaterial da capital.

            Nas primeiras edições, anos 1950, o município tinha aproximados quatrocentos mil habitantes. Ano passado, foram mais de quatrocentos e sessenta mil livros vendidos. A feira em andamento nesses dias que seguem, tem expectativa de um mais de um milhão e meio de visitantes. Em que percentual estes algarismos convergem-se em leitores? Não sei.

            No ano em que o mundo veio a mim (1980), foi admitida a venda de livros usados. A figura do Patrono, este ano a Patrona queridíssima Cíntia Moscovich, surgiu após a 11ª edição com Alcides Maya (1965). Comecei a perceber (hoje entendo!) essas coisas do meu mundo, somente a partir de Mário Quintana (1985). Que, para aflição desse poetinha tão andarilho, é estátua na praça, ao lado de Carlos Drummond de Andrade; e por não ter um cigarro parceirinho, faz cóceguinhas no ouvido da Luíza, na foto aí em cima.

            Dados de um vídeo institucional da feira desse ano: 93 bancas de livros, 12 bancas infantis, 06 bancas internacionais (nenhuma do grêmio!), 6.000 metros de área coberta, mais atividades em diversos locais, entre eles o Teatro Carlos Urbim que tem capacidade para 350 pessoas, serão mais de 700 sessões de autógrafos. Autores de Cuba, Espanha, Israel, México, Noruega, Peru.

            Literatura com tantos números e datas. Agora um refresco. Rápido, praça da alfândega! Vamos pela Rua da Praia, capaz de cair um toró d’água e olha que tudo vira mar. Está disposto leitor, a saltar comigo, dos galhos nos jacarandás floridos, sobre esse oceano literário que mais parece nosso tão benquisto Arquipélago dos Açores? Pois bem, prenda a respiração.

     Leia agora com a voz da Cléia Motti que, há 15 anos, melodicamente, orienta nossas braçadas na vazante da feira.

            … O impacto do mergulho fez brotar na água centenas de bolhas no formato da letra ó, maiúsculas e minúsculas. Já submerso avistei um cardume de verbos irregulares, a nado solto, próximos do monumento ao General Osório. Aos poucos, frases com nadadeiras de cores vivas e variadas, rápidas e esguias. Agarrados ao MARGS, como fossem rochedos, acentos-mariscos disputam cada centímetro – crases para um lado, agudos para o outro.

            Ostras gigantes carregam, em suas entranhas, clássicos da literatura mundial. Uma NÃO-BALEIA atravessa imponente, pesada, cercada por pequenas preposições e advérbios parasitas. Distante das outras vogais-alevinos, despercebido passeia o “a”. Vendo-a de boca aberta, o anzol, usando um “s” como isca, quase pesca a primeira letra que foi salva graças ao alerta de um T-tubarão-martelo.

            Maravilhado. Imerso nesse oceano-alfabético, encharcado de prosa e com a alma banhada até me esqueço, o que os pulmões se apressam em denunciar: falta-me o fôlego!

            Antes ainda de subir a superfície, quero mais um gole pra matar minha Santa Sede.

Ah, pudesse eu, e se quisesse, e bebesse leitura! Parágrafos inteiros escorreriam por essa garganta. E assim, talvez, saciar minha ignorância de escrever pra dentro.

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