Liberdade vigiada

passarinho

Foi assim a faísca de tempo em que se sentiu liberto. Único responsável por si só, entregue a toda sorte que lhe reservara o destino, esse impiedoso de pelagem macia e garras afiadas que nos espreita em silêncio. E foi assim que o horizonte surgiu sem moldura a sua frente, sem grades, sem aquela maldita ração e os cronometrados banhos de sol.

            Nasceu livre, por força das leis da natureza. Pela força das leis dos homens, e por meter o bico onde não foi chamado, acabou prisioneiro. Perdeu a liberdade ainda jovem, nem lembra direito a beleza e o perigo da vida lá fora. Acostumou-se aos ruídos dos dias e as silenciosas noites na solitária. No início algumas visitas, que passaram a ser raras, até escassearem de vez. Companheira, só a rotina pesando a mão sobre seus instintos; e o tempo, que corre mais lento pra quem tem mutilado o direito de ir e já não cultiva o desejo da volta.

            A quantas primaveras teria deixado de assistir? Em quantos concertos nos pomares teria faltado? Se falasse, não saberia dizer. Talvez cantando, um canto melancólico e triste, pudesse compensar a ausência de vida na sua vida. Atrás dos arames gradeados, vê no cantar seu último apelo. Mal sabe ele que, quanto mais canta, mais aumenta sua clausura. Quanto mais manifesta sua dor, maior será sua pena. Se o soubesse, ficaria calado. Voto de silêncio. Quem sabe fosse solto. Passarinho mudo não tem serventia pra caça. Não paga o alpiste que come. Não vale a gaiola onde vive. Mesmo assim, ainda corre o risco de virar palha e ser exposto na sala qual troféu emplumado.

            Contudo, mantinha afinada sua lamúria. Notas mais grave para os dias de chuva. As agudas, no poleiro de cima, onde corria uma brisa à tardinha. Foi quando num descuido oportuno o destino (ah, o destino!) esqueceu aberta à portinhola. E foi assim que o horizonte surgiu sem moldura a sua frente, sem grades, sem aquela maldita ração e os cronometrados banhos de sol. Não teve dúvidas, num movimento instantâneo, bateu asas e partiu rumo ao tempo perdido.

            Só não previa o bote preciso do gato. Abatido em pleno e desejado voo livre, sucumbiu frente à lei da selva.

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