essas coisas que não se conhece mais

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Dia desses, faxinando no sótão dos meus arquivos mentais, tropeço nessa letrinha da minha primeira infância. Deitava num papelzinho amarelado, bilhete pra minha mãezinha, lá da creche da tia Marta. Nunca entendi bem, mas chamavam as escolinhas de creches e as professoras de tias pelos anos mil novecentos a oitenta e picos. Conheço quem chama até hoje. Pra mim sempre foi aula e profi. Assim bem simples. Feito essa minha letrinha mimosa que descansava inocente; quietinha e serena. Não riam. Amei reencontrá-la. Não a deixo mais nesses arquivos no sótão poeirento da memória, onde entre dormem as delícias da minha primeira infância. Nã, nã, ni, nã, não! Agora ela fica comigo onde quer que eu escreva. E não é um amor, assim bem goduchinha?

Entrar pra creche da tia Marta era a mesma coisa que já ser um baita dum guri. Na aula, a gente fazia leitura coletiva. Boneco de fantoche. E foi lá que aprendi entrelaçar as mãozinhas das letras. Bem como estás lendo aqui. Tinha o alfabeto inteirinho pendurado acima do quadro verde. As figuras que deram vida a cada letra dançavam quando o vento, velho repetente, esticava o beiço pela janela e vinha soprar nossos cadernos. Giram todas agora no carrossel das minhas lembranças: abelha, bule, caracol, dália, elefante, foca, gato, harpa, índio, jarra, lápis, mala, navio, olho, pato, queijo, rato, sapo, torre, urso, vaca, xícara e zebra. Dei-me conta que lá nos anos oitenta e picos meu alfabeto ainda não tinha as letras k, o w, nem o y. Ainda bem, me encrencaria ainda mais nos ditados. Sim, tinha até ditado. Era assim: a profi escrevia uma palavra no quadro verde, esperava (bem pouquinho) a gente copiar e apagava logo em seguida. Escrevia outra, nem esperava quase, apagava de novo. Escrevia umas duas ou nove palavras que sumiam quando ainda nem tínhamos lido a anterior que ainda aparecia ao fundo meio apagada. Ditado era difícil. A Val sempre acertava todas. A primeira vez que eu fiz não tinha entendido muito direito. A profi apagava a palavra no quadro pra escrever a outra e eu apagava no meu caderninho também. Ao final não tinha nenhuma palavrinha pra mostrar. Mas a profi achou até graça. Explicou direitinho e eu nunca mais erei.

Retalhos de jornais e revistas, bem premidinhos, eram muralhas que cercavam fazendas e castelos feitos de caixinhas de pasta de dentes e rolos de papel higiênico. “Chegou cansado hoje, meu filho?”. “É que eu carreguei pedra pra construção lá na escolinha, mãe.”. Minha mãezinha me pegou pelo braço e foi lá na tia Marta saber que construção era aquela onde criança trabalhava. Mostrei pra ela como fazíamos as pedras, as fazendas e os castelos de papelão. Ela ficou impressionada. Piscou pra minha profi e me deu até um picolézinho da dona Irma antes do almoço. Tinha lá na aula também, aquela máquina com cheiro, ardido – mágico -, o mesmo que eu sentia quando passava pelo boteco do seu Assis. Fazia os trabalhinhos iguaizinhos pra toda a turma. Quando a profi entregava, queria logo cheirar bem fote à folhinha. Chegava a chorar. Escondido, né.

Outra vez cheguei da aula muito triste, amuado, com uma dor de barriga infernal, nem almocei. Minha mãezinha fez chá, leite morno com mel, me ofereceu até picolézinho da dona Irma antes do almoço e nada. Quando perguntou se tinha comido alguma coisa estranha na escola eu desaguei numa choradeira dilúvio. “É que a profi disse que eu to comendo umas letrinhas, mãe, quase sempre o erre. Comer assim muito erre mata, mãe?”…  Será que a profi se lembraria da minha letrinha? Olha que ficava feliz lendo esse meu textinho. Capaz de me dar um daqueles certos enormes com uma estrela bem na ponta, igualzinho os do caderninho da Val. Enxergo minha profi toda boba que eu não como mais nenhum ere. A Val sempre ganhava certos com estrelinhas pelo capricho com o material. O meu, quando estava em sala de aula, era sempre aos pedaços, rasurado, borrachas e lápis mordidos nas pontas. A mochila sempre no chão, “ÔÔÔ tia Maaarta, o Tiago tá trancando a passagem de nooovo.”. Um dia a profi engatou o pé na alça da minha merendeira e quase que cai. Que vergonha. Todo mundo riu. Levei bilhete pra casa e tudo. Na pedagogia do joelhaço, o pai me convenceu ter mais capricho com as minhas coisinhas. Pois foi o safado desse bilhetinho que eu reconheci aqui, amarelado e poeirento, do ladinho de outros recados que eu também devo ter esquecido.  A gente acaba que esquece essas coisas que não se conhece mais. Tipo, a letra das pessoas.

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