cidadão de bem

 

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“O bicho não era um cão,
Não era um gato.
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.”
Manoel Bandeira

 

imundo, fedorento, atordoado, mal consegue enfiado no próprio corpo, esfrega o peito em desespero, agacha, sacode o pescoço, levanta-se de sobressalto, da meia volta, arranca em disparada, de repente, estaca, tira a camiseta, amarra-a na testa, deita-se de bruços no asfalto, os olhos arregalados, pragueja, senta-se no meio fio do canteiro central, vomita com a cabeça enterrada entre os joelhos, lavado de suor, a pele escamosa, acinzentada, atravessa a avenida andando de costas, os braços abertos, finca pé frente um muro salpicado, o nariz roçando o cimento cru, grita contra a parede, sapateia, agoniza, seca o suor do rosto com ambas as mãos cerradas, esmurra a própria barriga, sorri com todos os cacos de dentes podres, cata uma bagana de cigarro do chão, vasculha no lixo seco, fala sozinho, espia dentro de uma garrafa, evita a calçada da padaria, recolhe um punhado de areia e atira pra cima, repete o gesto outras tantas vezes, a barba ensopada, os pés são duas postas de peixe fresco, agita-se, urra, bate no peito, cospe sangue com catarro, em pé, urina na própria bermuda, o sol já traz o dia a reboque, olha pra todos os lados, alucina, desvia dos carros, chuta uma placa de trânsito, bebe o resto de uma latinha amassada, guarda a latinha no bolso, procura algo embaixo do banco da parada de ônibus, desiste, senta-se outra vez, coça desesperadamente as canelas, puras feridas, alguns passantes de mãos dadas com seus atrasos, recebe um olhar de repulsa, um de nojo, outro de medo, recolhe-se em posição fetal na calçada da farmácia, abaixam-se as grades, deixa ali mesmo seus excrementos, marcha sem rumo aparente, retorna correndo, some do alcance dos olhos, alívio do mal estar que espreita das janelas dos prédios, não o do cronista, na curva da servidão – desaparece. Pronto, o bairro já pode amanhecer. Abre-se a padaria. Todos ao bom café da manhã. Bom dia, cidadão de bem.

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