O burro motivado

Motivação é um atributo indispensável nesses tempos indóceis que estamos tropeçando, digo, atravessando. Claro, o sujeito motivado consegue atingir melhores resultados, entrega mais e melhor, chega mais longe. Ter um motivo para agir faz toda a diferença. Agora, um burro motivado, aclamado e empoderado, pode colocar entulho e acima de todos e tudo por água abaixo.

Sempre foi usado, historicamente, como animal de carga e não como animal no cargo. Calça coturnos sobre as ferraduras o burro motivado. A fama de teimoso, do comportamento difícil, de ser incapaz de aprender, vem lá de Esopo, de quem o burro, certamente, nunca ouviu falar, mas tem certeza que é comunista.

O burro motivado entra em uma loja de porcelana chinesa e escoiceia as prateleiras na busca de um conjunto português. Mastiga as cortinas, bufa, bate os cascos e deixa uma encomenda quente e disforme, rodeada de moscas, na porta de saída.

 

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Um burro motivado, no cinema, atende o celular aos berros no modo viva voz. Senta no lugar errado, derruba pipoca no casal da fileira abaixo, mastiga de boca aberta e discute com todo mundo; do lanterninha, ao mocinho do filme.

Motivado, um burro pode zurrar por horas e horas, a uma plateia de néscios, sem dizer coisa com coisa. E é aplaudido de quatro pés! Desmotivado, orneja apenas burrices cotidianas. Empaca em algumas expressões e não sai do “tá ok” e do “isso aí”, nem a cabresto.

Motivado, o burro confunde capim com talharim, entorna um balde de sabonete líquido pensando ser suco detox da Unilever. Na sobremesa, aprecia um antitranspirante em creme e sai falando mal dos “iogurtes” da Nivea.

Filosofia, sociologia, pensamento crítico, os novos arranjos familiares, minorias, professores, estudantes, negros, gays, mulheres, aposentados, pobres – não fazem sentido nenhum para o burro motivado. Quer priorizar a veterinária – obviamente – legislando em causa própria. Por trás dos antolhos de couro curtido, só enxerga a extrema direita, só tem um norte, o norte americano.

Motivado, esse parente do cavalo, dispara certezas hípicas via Twitter, sempre sob a orientação de um guru com ideias de jerico e do próprio filho de burro. O burro motivado é dono de um laranjal. O burro, que não se vê como tal, por algum motivo protege o Índio (um em específico). Exalta torturadores, defende o armamento e comemora a ditadura.

E quando aparece em público, mascando um capim no canto da boca, o rabo a espantar parasitas oportunistas, o burro motivado insufla o ego, rumina entes de relinchar e recebe o aplauso da récua sob os gritos de: Jumito! Jumito! Jumito!

 

 

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