Big Sister Brasil

machotoxico

Se tem uma coisa que o BBB escancara nesta edição é o quão tóxico pode ser o machista. No Twitter, a mais veloz das ferramentas de linchamento virtual, estão chamando a disputa entre os dois emparedados desta noite de Cherno X Byl. Quando em grupo, então, chega a ser cômico se não fosse estúpido. E ninguém instigou, fez provocação, deixou a bola quicando, nada, o patriarcado apenas agiu como age normalmente na sociedade.

Em 1791, a dramaturga Olympe de Gouges organizou, junto de outras mulheres, uma resposta à Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão, feita dois anos antes. A Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã pedia direito ao voto e à propriedade e acesso às instituições políticas. Foi guilhotinada em 1793 sob o argumento de ter traído a natureza do sexo.

Em 1897, a britânica Millicent Fawcett fundou a União Nacional pelo Sufrágio Feminino, as “Sufragistas” tiveram sua grande vitória em 1918, quando o voto feminino foi legalizado no Reino Unido. No Brasil, o voto das mulheres veio apenas em 1932. Exatos cem anos depois de publicado por aqui o Direito das Mulheres e Injustiça dos Homens, da potiguar Nísia Floresta.

Virginia Wolf escreveu que uma mulher, para ser realmente livre, precisa de um teto todo seu e quinhentas libras anuais. Escreveu em uma época em que as mulheres não tinham direito a propriedade e raras exceções tinham o privilégio de trabalhar. Já Simone de Beavoir disse que não se nasce mulher, torna-se mulher. E desmistificou a ideia de superioridade biológica do homem. “Um teto todo seu” é de 1929. “ O segundo sexo”, de 1949.

Então, para quem pensa que o feminismo começou nessa edição do Big Brother, saiba que as mulheres estão emparedando há, no mínimo, duzentos e vinte e nove anos. E o macho alfa ainda não consegue compreender direito nem os verbetes que representam a causa! Sei que eles não merecem, mas vou dar uma ajudinha. Se liga aí, heterotóx:

Bropriating
Apropriação de algo por um homem (do inglês “bro”, irmão + “appropriating”, apropriação). Usado quando um homem se apropria de uma ideia levantada por uma mulher.

Empoderamento
Tomada de poder do indivíduo, o resgate de sua dignidade e o reconhecimento de sua importância. “Empoderar-se” é o ato de adquirir poder. Quando trazido para o âmbito feminista, é adquirir poder como mulher. O termo, um dos mais procurados no Google em 2016, foi criado pelo educador Paulo Freire, que se inspirou em empowerment (“fortalecimento”, em inglês).

Feminicídio
Crime de ódio contra mulheres e meninas em função do menosprezo à condição feminina. O termo jurídico, um agravante penal ao crime de homicídio, foi difundido pela escritora sul-africana Diana E.H. Russell (“femicide”, em inglês).

Gaslighting
Prática do homem que convence uma mulher de que ela não está com o domínio da razão (o famigerado “você está louca!”), algo comum em relacionamentos abusivos. O termo foi retirado do filme Gaslight (À Meia Luz, no Brasil), de 1944. Nele, um homem convence a esposa (Ingrid Bergman, que ganhou o Oscar pelo papel) de que ela está insana, para tomar sua fortuna.

Mansplaining
Prática de homens que se dedicam a explicar algo a mulheres de forma condescendente e sem serem solicitados. O termo, que vem de “man” + “explaining” (“explicando”), tem origem incerta. Alguns atribuem à escritora Rebecca Solnit, autora de Os Homens Explicam Tudo para Mim.

Manspreading
Do inglês “man” (“homem”) + “spreading” (“espalhando”), é o hábito de um homem que ocupa um espaço desproporcionalmente maior, com as pernas exageradamente abertas, em locais públicos, especialmente em meios de transporte. O termo surgiu em 2014 em um blog dos EUA. No mesmo ano, o metrô de Nova York passou a alertar os passageiros a fecharem as pernas.

Manterrupting
Do inglês “man” + “interrupting” (“interrompendo”). Ou seja, homens que interrompem. É um comportamento comum em reuniões, quando uma mulher não consegue concluir um argumento. Surgiu no artigo “How Not to Be ‘Manterrupted’ in Meetings”, publicado na revista Time em 2015.

Patriarcado
Modelo sociopolítico em que o gênero masculino e a heterossexualidade exercem supremacia e poder sobre os demais.

Objetificação
Reduzir uma pessoa à condição de coisa. Na sociedade patriarcal, é usado para tratar a mulher como objeto sexual, limitando-a aos seus atributos físicos.

Sororidade
União entre as mulheres, em que prevalece a ideia de respeitar, ouvir e dar voz a todas, mesmo quando não há concordância. Trata-se de estreitar os elos femininos e fortalecer a empatia para dar força e organização ao movimento. É o preceito básico da luta, pois ele parte de um ambiente feminino e feminista. Ele serve também para combater a ideia de que mulheres são rivais. O termo vem do latim soror, que significa “irmã”. Nos EUA, sororities são organizações sociais em universidades compostas só de mulheres.

Depois não vem se fazer de desentendido, machão. O lugar do homem é de escuta.

Obrigado, de nada.

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2 comentários em “Big Sister Brasil”

  1. Gilmar de Azevedo

    Caro Tiago, agradecido pelo excelente texto. Informações importantes em estilo inconfundível. Parabéns!

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